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INFORMES DA EQUIPE DE PSICOLOGIA

   
             São vários os fatores que podem causar a obesidade mórbida em uma pessoa. A carga genética, as alterações metabólicas são indiscutivelmente importantes em pessoas acima do peso. Porém não podemos nos esquecer que os fatores psicológicos são particularmente complexos nos pacientes obesos.

            São difíceis os caminhos na busca de um equilíbrio psicológico.  Nossa vida familiar, sexual, relações no trabalho, nossas frustrações e fugas, nossa busca pelo prazer, o stress e a ansiedade fazem parte do nosso dia-a-dia e nos afetam consciente ou inconscientemente.

            Nossa opção pelo sedentarismo ao invés de buscarmos uma academia, nossa opção por saciarmos nossa fome de prazer apenas com alimentos, nossa rejeição por um corpo saudável, nossa dificuldade de enfrentarmos decisões difíceis e nossa opção de fuga pela porta da geladeira são exemplos de como fatores psicológicos podem desviar os caminhos de nossas vidas até ficarmos doentes.

            A relação do ser humano com a comida é especialmente complicada e tem uma longa história. O homem se tornou social em volta da comida e ainda continua a fazê-lo.

Parece que nos esquecemos das opções de lazer e prazer longe de bares, restaurantes, jantares, festinhas, lanchonetes e shoppings. A comida ainda é uma fonte de prazer fácil, disponível e parece ser o principal fator de integração de algumas pessoas. Já imaginaram um aniversário sem bolo?

            A cirurgia bariátrica, provocando a redução do estômago, causará uma limitação física impedindo a ingestão de grandes volumes de comida, mas, as relações psíquicas do indivíduo em nada serão afetadas pelo bisturi.

            Somente com trabalho interdisciplinar poderemos realmente ajudar os pacientes a se reorganizarem para que uma nova etapa se inicie de forma efetiva na vida dos pacientes que sofrem com a obesidade mórbida.

            O instrumento que a psicologia usa vai bem mais fundo que o bisturi do cirurgião. Não existe anestesia que resolva as aflições, frustrações e angústias que não forem compartilhadas. Somente com um bom trabalho da equipe de psicologia poderemos alcançar o real sucesso da cirurgia bariátrica.

            Os pacientes devem estar dispostos a passar por mudanças e alguns atributos são fundamentais para que o equilíbrio com a cirurgia bariátrica aconteça:

  1. Aceitação: para quebrarmos nossas resistências para essa conversa e abrirmos nossos corações para que as psicólogas possam realmente nos conhecer e então nos ajudar a encontrar nossos novos caminhos.
  2. Paciência: pois nem todas as respostas serão encontradas de imediato. Somente com tempo é que os resultados aparecem. Em duas ou três sessões ainda não se observam às mudanças esperadas.
  3. Persistência: algumas pessoas, depois de operadas, encontram-se magras, acham que tudo está resolvido e não mais retornam para as psicólogas. As questões não trabalhadas e problemas antigos poderão acabar retornando de formas diferentes.


Atuações da psicologia:

 Pré-operatório:

             Um contato inicial, com uma breve avaliação do paciente, de seu histórico e de suas relações, facilitará os trabalhos posteriores da psicologia.

            A decisão pela cirurgia, o medo inerente ao ato operatório e suas conseqüências, a angústia dos riscos, as pressões familiares, as expectativas são alguns fatores que serão abordados com cada paciente.

            Algumas pessoas estão em um momento especial de angústia ou até de depressão e não deverão ser operados nesse momento. Da mesma forma uma euforia excessiva, com expectativas exageradas com os resultados da cirurgia deverão ser trabalhados antes de se pensar na operação.

            O modo como cada obeso se relaciona com a comida tem grande significado na avaliação pré-cirúrgica. Torna-se necessário focalizar o lugar ocupado pela comida na vida de cada um. A maioria dos obesos engorda e come compulsivamente, não porque sente uma fome física e sim, psicológica, ou seja, alguns obesos comem, muitas vezes, porque se sentem tristes, ansiosos, estressados ou frustrados. Usam a comida como um nutriente emocional inadequado, ou seja, escondem suas próprias emoções através da comida.

            O objetivo é preparar o paciente a buscar a consciência das causas verdadeiras da compulsão para que se detectem as possibilidades de mudanças nessa relação: OBESO  X  COMIDA, e assim a descoberta de outras fontes de prazer.

            Uma boa preparação para as mudanças que acontecerão com a cirurgia, seus resultados e limitações favorece e suaviza essa brusca transição. Um contato da psicóloga com familiares poderá ser importante para lembrar as novas relações que poderão surgir.

 Pós-operatório:

             A ansiedade inicial com as mudanças impostas pela cirurgia mudando todo o rítimo de alimentação, as limitações impostas pela ferida operatória, o stress cirúrgico poderão ser acompanhados pela psicologia.

            O acompanhamento psicológico ajuda a traçar metas baseadas no real quanto à perda de peso, na ajuda da imagem futura, ajuda na reintegração do Sujeito consigo mesmo e com o mundo ao redor. Nesta fase o foco terapêutico passa a ser a nova imagem e suas repercussões sobre a personalidade de cada um.

            Liberto do sintoma encobridor, a obesidade, conflitos mais básicos tendem a aparecer. Então, torna-se possível e tem-se tempo para realmente desenvolver um trabalho terapêutico, favorecer um recontato com o corpo, muitas vezes rejeitado e agredido e que simplesmente representava um reflexo conflituoso interno.

            As novas relações familiares, afetivas, sexuais, produtivas e na sociedade devem ser trabalhadas adequadamente para facilitar uma reintegração sem muitos desgastes. As pessoas em volta tendem a estranhar a nova figura e suas novas atitudes.

            Evitar situações de revanchismo ou de euforia exagerada pode salvar casamentos, empregos, amizades e famílias. O novo magro tende a querer resgatar partes da vida que foram roubadas pela obesidade e às vezes erram na dosagem.

            Da mesma forma, pacientes operados que insistem em usar a comida para satisfazer suas carências emocionais ou seu desequilíbrio pessoal continuarão tentando comer no mesmo volume de antes, mas, agora terão um limitador físico: o estômago reduzido. Por vezes, pessoas que não continuam o acompanhamento psicológico continuam por ter uma relação doentia com o alimento e passam a ter vômitos freqüentes ou dão um jeito de voltar a engordar usando dietas líquidas hipercalóricas. A auto-agressão continua e a fuga de si mesmo também e nenhuma cirurgia poderá resolver essa doença sem uma boa abordagem psicológica.

            O sucesso da cirurgia bariátrica não é medido em quilos. O sucesso é conquistado por aqueles pacientes que se utilizam da cirurgia como um instrumento para facilitar sua busca pelo emagrecimento com saúde e felicidade.